[ARTIGO]: A saída para a crise no Brasil

Por José Álvaro de Lima Cardoso, economista do DIEESE

A economia nacional está atravessando uma das mais graves crises de sua história. Em relação à 2015, em 2019 o PIB é 5,1% inferior, os investimentos são menores em 23,4% e o consumo das famílias em 5,3%. Entre 2011 e 2018, tivemos um ritmo médio de crescimento de 0,58% ao ano e, tudo indica que essa será a pior década da história em termos de crescimento econômico, superando as décadas perdidas de 1980 e 1990.

Neste quadro de estagnação o desemprego segue nas alturas. A taxa de desemprego, segundo o IBGE, subiu para 12,7% no primeiro trimestre do ano, atingindo 13,4 milhões de brasileiros. Além da taxa de desemprego ser muito alta, 5,2 milhões de desempregados, quase 40% do total, procuram emprego há mais de 1 ano. Daquele total, 3,3 milhões de pessoas (25%), estão desocupadas há dois anos ou mais. Alguns estados apresentam taxas impressionantes, como Amapá (20,2%), Bahia (18,3%) e Acre (18%).

No outro extremo, estados com taxas bem inferiores, como Santa Catarina (7,2%), mas que apresentam grande elevação do indicador nos anos recentes, o que mostra o agravamento do problema. Só para termos ideia do drama, em 2014, quando o Brasil apresentou as menores taxas de desemprego da história, a taxa em Santa Catarina estava em 2,8%, uma situação de pleno emprego, na prática. Em relação a 2014, o crescimento da taxa de desemprego em Santa Catarina, em 2019, é de 157%.

Entre os jovens o desemprego é assustador. A taxa entre brasileiros que têm entre 18 a 24 anos ficou em 27,3% no primeiro trimestre, o dobro da taxa média nacional, de 12,7%. Podemos imaginar o que significa para um jovem trabalhador brasileiro, que possivelmente está batalhando para obter o seu primeiro emprego, encarar um mercado de trabalho onde mais de um em quatro trabalhadores não consegue colocação, e num ambiente no qual o pouco que existe de Estado social, e os direitos trabalhistas, estão sendo rapidamente desmontados.

O quadro do desemprego no país é decorrência da crise econômica, mas é principalmente o saldo acumulado nos três anos de política do golpe no Brasil (a própria gravidade da crise é fruto do golpe). O processo golpista conduziu o país, a uma crise financeira e econômica muito grave e a um horizonte econômico e social simplesmente devastador. O que estamos presenciando nos últimos anos é um desmonte do Estado jamais visto no país. Neste momento, as frações golpistas estão em feroz guerra interna, fator que agrava o quadro político e que, somado ao quadro econômico, torna muito difícil a permanência de Bolsonaro na presidência. Ademais, o agravamento da crise, e as dificuldades para aprovar a PEC de destruição da previdência no Congresso, vem corroendo a relativa unidade em relação ao programa econômico de guerra contra o povo (sob a condução de Paulo Guedes). Unidade que havia no início do governo, entre os grupos que tomaram o poder de assalto em 2016, mesmo não sendo Bolsonaro o candidato preferido desses segmentos.

Do ponto de vista da maioria da população, a fórmula neoliberal não funcionou em nenhum lugar do mundo onde foi implantada. O crescimento estagnou, o desemprego aumentou e o patrimônio público foi dilapidado (claro, do ponto de vista do capital a fórmula pode funcionar, pelo menos durante um certo tempo). A população brasileira, inclusive tem memória relativamente recente desse tipo de política, dos governos FHC (1995/2002). Boa parte do patrimônio brasileiro foi dilapido, através da queima de estatais a preço de banana, e a vida dos trabalhadores piorou muito com queda da renda e elevação dramática da taxa de desemprego. O que dizer da fórmula ultra neoliberal que o fundamentalista Paulo Guedes está implantando no Brasil, que pretende, por exemplo, vender todas as estatais brasileiras?

O ultra neoliberalismo de Guedes vai dar completamente errado, do ponto de vista dos interesses brasileiros, como se pode prever facilmente. Dentre outras razões porque o governo não tem proposta para nenhum dos grandes problemas nacionais. O “programa” de governo de Guedes é vender o patrimônio do país e destruir as estruturas de atendimento à população, como está empenhado em fazer com a Seguridade Social. Acredita que destruindo essas estruturas, fruto de décadas de luta dos trabalhadores, o crescimento irá retomar no país. Se der errado, não há problema, coloca-se a culpe nas “corporações” e no “populismo” do Congresso Nacional. Parece uma brincadeira. O problema é que Paulo Guedes não é chefe de um laboratório de testes econômicos, e sim ministro do Brasil, a oitava economia e uma das maiores populações do mundo. Se aguardamos que o projeto de Paulo Guedes fracasse – e é certo que acontecerá – o Brasil pode implodir social e economicamente.

A luta contra o governo Bolsonaro está nas ruas e é muito vigorosa, como no 15 de maio, quando presenciamos as manifestações mais massivas ocorridas no país, no mínimo desde 2014. A solução para os problemas da economia e da sociedade, como já aconteceu em outros momentos da história do Brasil, parece estar nas ruas, ou seja, no fortalecimento do movimento dos trabalhadores e da juventude contra a política de destruição do país que este governo está encaminhando.

Metade das mulheres grávidas são demitidas na volta da licença-maternidade

Muitas se deparam com demissão e dificuldade em voltar para o mercado. Empregadores focam nas perdas que terão com as futuras mães

A maternidade permanece polêmica para empregadas e empregadores. Quando uma trabalhadora engravida, o foco das empresas continua sendo nas “perdas” que terá nos próximos anos. O tempo passa, mas os empecilhos são os mesmos: receio de a mãe faltar ao trabalho, caso o filho passe mal; de ela pedir para chegar mais tarde para ir a uma reunião escolar; ou de se atrasar, devido à exaustão da rotina. Os benefícios da maternidade para as empresas e até para a economia do país, mesmo comprovados por diversos estudos, ainda são ignorados.

Na contramão do senso comum, especialistas apontam que as mães são mais produtivas e flexíveis, porque as atividades neurais, ligadas à criatividade, aumentam durante a gestação. Além disso, o hábito de acumular duplas jornadas as deixam com maior capacidade de otimizar o tempo — tornam a vida das mulheres mais fácil no mercado de trabalho. Ainda assim, persiste o pensamento de que o empregador não suportará o tempo de afastamento, sem preencher aquela necessária vaga. Fora isso, há o temor de que o período em que fica com a criança a deixará desatualizada em relação à tecnologia, que avança rápido.

Esse pensamento leva, quase sempre, a uma realidade cruel. Estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV) aponta que metade das mães que trabalham são demitidas até dois anos depois que acaba a licença, devido à mentalidade de que os cuidados com os filhos são praticamente uma exclusividade delas. Grasiela Maria de Araújo, 36 anos, foi demitida logo depois de ter o terceiro filho, em 2013. “Tirei a licença e mais um mês de férias. Ao voltar, fui desligada”, conta.

Mas não esmoreceu. Fez bicos enquanto esperava emprego de carteira assinada, que só veio dois anos depois. Grasiela entrou para o mercado de trabalho aos 18 anos, como atendente em uma lanchonete. Hoje, tem um filho de 18 anos e outros dois, de 15 e seis, de uma união estável que já dura 17 anos. “A gente ouve o tempo todo que mãe não trabalha, faz corpo mole. É difícil. Já perdi emprego porque de cara disseram que eu não estaria disponível para viajar”, assinala.

Pesquisa dos profissionais da Catho de 2018, com mais de 2,3 mil mães, afirma que 30% das mulheres deixam o trabalho para cuidar dos filhos. Entre os homens, esse número é quatro vezes menor: 7%. Claudia Santos, 38, preferiu pedir as contas antes de ser demitida. Nascida em Belém, ela começou a trabalhar aos 14 anos, vendendo salgados nas ruas, e, aos 17, foi contratada por um restaurante. Engravidou em seguida e não aguentou o calor do fogão. “Deixei o emprego antes de ser demitida. Ouvia o chefe dizendo que mulher grávida é problema porque falta ao serviço e aumenta o custo por causa do salário-família”, lembra. Ela só conseguiu voltar a trabalhar fora depois de dois anos.

De volta à ativa

Dani Junco, fundadora e diretora executiva (CEO) da B2Mamy, aponta que, a cada 10 mulheres, quatro não conseguem retornar ao mercado após a licença-maternidade, de acordo com a consultoria Robert Half. “Percebo que é uma questão cultural. Em minha experiência, senti que as pessoas achavam estranho quando eu deixava meus filhos na escola o dia inteiro”, relata Claudia Consalter, mãe de gêmeos e fundadora da Orthodontic, rede de clínicas de ortodontia.

A tributarista Rhuana Rodrigues, 38, sócia do Chenut, Oliveira, Santiago Advogados, acredita que o peso maior da responsabilidade com os filhos sempre recai sobre a mãe. “Mas costumo dizer que meu marido me ajuda, ele compartilha o cuidado com as crianças, que também cabe a ele”, argumenta. Casada desde 2006, ela teve o primeiro filho, de quatro anos, aos 33 anos. O segundo é recente: está com apenas três meses.

“Especialmente comigo, não houve discriminação, porque sou dona do meu negócio e diretora de Recursos Humanos do escritório. Mas ouço histórias terríveis”, conta.

Durante o tempo da licença-maternidade, Rhuana aproveitou que o “bebê dormia o dia inteiro”, para concluir a monografia de pós-graduação em direito digital.

A lei e a vida real

Assegurada por lei desde 1943, a licença-maternidade atendeu mais de 53 mil brasileiras em 2018, pelos dados da Secretaria Especial de Previdência e Trabalho do Ministério da Economia. “Atualmente, o empregador é obrigado a conceder 120 dias, mas é possível estender até 180 para os que aderirem ao programa Empresa Cidadã, que gera benefícios fiscais para os contratantes”, conta o advogado João Badari, especialista em direito previdenciário do escritório Aith, Badari e Luchin Advogados.

Mesmo com o direito garantido no papel, a lei, às vezes, é ignorada. Raramente as mães contam com a ajuda de que precisam depois da gravidez. Mesmo assim, muitas narram histórias de sucesso. Maire Laide Albernaz Neiva, 62, administra um restaurante com 20 funcionários, depois de criar três filhas (43, 41 e 38 anos). “Comecei cedo, aos 14 anos, em uma agência de automóveis. Aos 15, fui transferida para a área de cobrança. Cheguei a chefe do setor financeiro, aos 25”, relata.

As três filhas foram criadas, praticamente, dentro da concessionária. Os patrões montaram berço e a infraestrutura para as crianças. “Mas nunca tirei licença-maternidade. Voltava a trabalhar 15 dias após ter neném. Precisava do dinheiro e tinha a opção de ganhar dobrado”, afirma. Depois que os filhos cresceram, Maire entrou para a Faculdade de Moda e conseguiu o diploma, aos 50 anos. Uma vitória para quem tem uma mãe de 85 anos “que não sabe ler nem escrever”. “Hoje, minhas filhas têm vidas próprias. Mas ainda cuido de minha mãe e de uma sobrinha especial, de 45 anos”, destaca.

Não deixar de ter ambições próprias é uma das dicas que Luzia Costa, CEO do Grupo Cetro, dá para quem é mãe e quer iniciar a vida de empreendedora. Mãe de dois filhos, ela ressalta a importância de enfrentar julgamentos e aceitar ajuda.“Sem dúvidas, muitas pessoas irão lhe criticar por dedicar um tempo do seu dia para trabalho e vida profissional, deixando filhos com avós, babás, em escolinhas, entre outros. Mas precisamos realizar nossos sonhos, até mesmo para dar condições melhores para nossos filhos”, ensina.

 

Fonte: Correio Braziliense, 12 de maio de 2019

Dia das Mães foi um fiasco e setor de serviços desaba: economia marcha para a estagnação

Após o Banco Central admitir que existe uma “probabilidade relevante” da economia ter encolhido no primeiro trimestre, o que poderá colocar o país oficialmente na situação de uma recessão técnica (leia no Brasil 247), a queda de% no valor das vendas do Dia das Mães, segunda principal data do comércio varejista, aponta para um quadro de estagnação econômica resultante de uma falta de política que alavanque o ritmo da economia. Além deste fiasco para o varejo, o setor de serviços também encolheu 0,7%em março, na terceira queda consecutiva, acumulando uma retração de 1,7% nos três primeiros meses do ano.

 

Segundo a Associação Brasileira de Lojistas de Shopping (Alshop), os consumidores gastaram 5% menos que no mesmo período do ano passado, evitando fazer dívidas em carnês ou no cartão de crédito, apesar do aumento de 4% na vendas, ante a o Dia das Mães do ano passado. O ticket médio de um ano para o outro encolheu cerca de 10%. “Aquelas pessoas que já conseguiram melhorar o seu nível de endividamento não querem assumir novos riscos, logo, na compra de algum presente, procuraram aliar à sua disponibilidade de gasto menor”, disse o diretor institucional da Alshop, Luís Augusto Ildefonso da Silva ao portal G1

 

A tendência de retração também se estende a outros setores da economia. Segundo o IBGE, o volume do setor de serviços vem encolhendo desde o início do governo Jair Bolsonaro. A queda de 0,7% em março, elevou para 1,7% a retração acumulada do setor ao longo do primeiro trimestre. Na comparação com março de 2018, o tombo chegou a 2,3%.

 

Além disso, a receita nominal do setor de serviços caiu 0,6% na passagem de fevereiro para março, apesar de registrar alta de 1,1% na comparação sobre o mesmo mês do ano passado.

Fonte: Portal G1, 14 de maio de 2019

[ARTIGO]: Brasil, novamente, à beira da recessão

(Por João Borges, comentarista da GloboNews. Trabalhou em ‘O Estado de S. Paulo’, ‘O Globo’ e Banco Central) 

A divulgação nesta terça-feira (14) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) dos dados sobre o desempenho do setor de serviços, apontando queda de 0,7%, acentua o temor de que a economia brasileira encolheu nos três primeiros meses do ano. O PIB do primeiro trimestre será divulgado no dia 30 pelo IBGE. Entre bancos e consultorias econômicas, cresce o número daqueles que projetam resultado negativo.

 

A ata do Comitê de Política Monetária (Copom), divulgada também nesta terça, praticamente sanciona o que já vem sendo dito entre economistas do setor privado, ao que dizer que:

 

“Os indicadores disponíveis sugerem probabilidade relevante de que o Produto Interno Bruto (PIB) tenha recuado ligeiramente no primeiro trimestre do ano, na comparação com o trimestre anterior, após considerados os padrões sazonais”.

 

Não é ainda a recessão, porque, tecnicamente, o critério estabelecido é o de que uma recessão se caracteriza quando ocorrem dois trimestres consecutivos de queda na atividade econômica.

 

Os dados preliminares de abril e maio também indicam que a economia não reage. Outro resultado negativo não está descartado, mas não é a hipótese mais provável, segundo analistas consultados pelo blog.

 

O resultado do primeiro trimestre foi fortemente afetado pela indústria, que apresentou queda de 2,2% no trimestre. Parte disso se explica pelo efeito Brumadinho, com a paralisação da produção de minério de ferro da Vale por causa do desastre na barragem na cidade mineira.

 

Apenas em parte, porque a situação geral da indústria é crítica. E o setor de setor serviços acumulou queda de 1,7% no trimestre. N o varejo alta modesta, de apenas 0,3%.

 

A pesquisa Focus divulgada pelo Banco Central na segunda-feira (13) registrou a 11ª semana consecutiva de revisão para baixo, projetando crescimento de de 1,45% este ano. Será?

 

Alguns bancos já estão prevendo crescimento em torno de 1%, repetindo 2018 e 2017, anos em que a economia avançou apenas 1,1%.

 

Aqui cabe ressaltar um dado importante. Por causa do resultado em torno de zero por cento de janeiro a junho, para que a economia cresça 1% este ano será preciso que haja forte reação no segundo semestre, com crescimento acima de 0,5% a cada trimestre.

 

Para o governo, a mudança do cenário econômico depende da aprovação da reforma da Previdência e outras que estão na agenda do ministro da Economia, Paulo Guedes.

‘O varejo cria um ambiente escroto: cansei de ver vendedor sacaneando o colega por comissão”

Fui procurar meu primeiro emprego aos 18 anos. Felizmente, a condição financeira da minha família nunca demandou que eu trabalhasse para ajudar no orçamento da casa, então, tive esse privilégio. Eu havia feito seis meses de Direito, mas tinha trancado o curso para voltar a estudar para prestar vestibular para Publicidade. Enquanto estava no cursinho, resolvi trabalhar para poder ter meu próprio dinheiro. Como não tinha experiência nenhuma, fui para o shopping e saí entregando currículo. Era 2011.

Consegui emprego numa loja de roupas caras, dessas que vendem casaco de pele (vendia, na época), e blusinha básica a R$ 150. Eles aceitam qualquer pessoa mesmo sem saber se você é bom com público, se você atende bem etc. Não porque eles fornecem treinamento, mas porque a rotatividade é alta o suficiente para um funcionário ruim em piso de loja não machucar o lucro.

Comecei meu trampo e tudo ali me parecia contra-intuitivo, começando pela comissão individual e o sistema de “vez”. Para quem não sabe, em 90% do varejo, quando você entra na loja, é “a vez” de um vendedor. É a vez dessa pessoa de atender um cliente. Se você não leva nada, ela perde a vez.

E tem regras esdrúxulas do tipo: se a cliente só perguntar de um item, mas não mexer em nada, você não perde a vez e pode atender o próximo cliente. Foi para o banheiro? Perdeu a vez. O cliente passou 15 segundos na loja mas mexeu numa jaqueta? Perdeu a vez.

Numa segunda-feira, quando entram 10 pessoas na loja o dia inteiro, cada vez é sua chance de bater sua meta diária. É, tem meta individual diária e mensal de venda. Isso cria um ambiente escroto onde todo mundo passa perna em todo mundo, ninguém é amigo de ninguém e teus colegas te esfaqueiam pelas costas.

Quando um cliente reservava peça e vinha buscar no horário que a pessoa que lhe atendeu não estava, minha Nossa Senhora. Era gritaria. Cansei de ver vendedor escondendo peça para o outro não roubar a venda. Rolava briga feia.

Ah, o esquema de trabalho era 6×1. Trabalha seis dias, folga um. Dois domingos por mês de folga. Não existia folga de sábado. Simplesmente não existia. Era o dia mais cheio, e todo mundo queria estar na loja para vender e bater meta. Sábado tinha meta de R$ 10 mil por pessoa. O salário era o mínimo da época, R$ 545, mais 3% do que você vendeu. Eu ganhava uns R$ 900 reais quando conseguia tirar comissão. O mínimo da loja, já com descontos, era pagar R$ 645. Num mês muito bom de comissão, cheguei a fazer R$ 1.300.

Ah, e só recebia comissão se vendesse acima de R$ 20 mil. Vendeu R$ 21 mil? Parabéns, ganhou comissão. Vendeu R$ 19 mil? Sinto muito. As metas geralmente eram R$ 40 mil.

Ou seja, você ficou lá, trabalhou o mesmo tanto de horas, mas recebe menos. Às vezes, você não tem o conhecimento de um vendedor mais experiente, não tem cliente habitué, só pegou uns “caroço” o mês inteiro, todo mundo passava a perna em você na loja. Azar o seu. Trabalhou igual? Sim. Mas ganhou menos.

Nesta loja, em particular, os gerentes faziam a gente comprar as roupas pra usar como uniforme, o que é crime. A gente tinha 40% de desconto de funcionário, e eles tratavam isso como um puta favor que a loja estava fazendo por nós. Porque, né, você tem que usar as roupas da marca para o cliente achar bonito e querer comprar também. E se não tava usando pelo menos uma peça da loja, era bronca.

Agora lembra que as blusinhas custavam R$ 150? E a gente ganhava R$ 700 sem comissão? Vê se cabe no orçamento isso? E tome na orelha dos gerentes por vir com roupa “de fora”.

Um belo dia, o estoquista da loja pediu demissão e, obviamente, nas semanas seguintes tudo começou a virar um caos. Pilhas desarrumadas pelo estoque, ninguém achava tamanho de merda nenhuma, todo mundo pisando em saco de roupa no estoque para conseguir entrar lá. Minha gerente teve então a brilhante ideia de mandar todo mundo passar a madrugada inteira arrumando o estoque. Detalhe: não havia banco de horas. Não recebíamos hora-extra. Não deram folga para compensar nem nada.

O povo ficou lá até duas da manhã, e eu fui para o sossego do meu lar. Falei pra minha gerente: “Maria, faz as contas comigo. Esse mês a gente vendeu mais de R$ 200 mil pra essa marca. Tira os nossos salários, ainda sobram mais de R$ 180 mil. Tu acha mesmo que o dono dessa merda não tem R$ 750 para pagar um estoquista? Ele tá pouco se fodendo para você, para mim, para todo mundo. Se você vai ter que dormir na loja porque o metrô já fechou, e a linha que chega na tua casa não tem noturno, ele está pouco se fodendo de dentro do Porsche dele. Deixa essa merda explodir e vir a supervisão aqui na loja. Daí tu pede pela vigésima vez um estoquista”. Eu tinha 18 anos, mas consciência de classe sempre tive.

Não adiantou nada. Todo mundo ficou – eu me retirei porque ameacei processar ela e a marca por me segurar lá depois das 22h30.

Teve também o sábado em que a loja ferveu, sério, ferveu. Cada vendedor atendendo umas 3 pessoas diferentes. Aí, quando passou aquele rebuliço, vimos que duas peças tinham sumido da arara de catálogo, onde ficavam as peças mais caras da coleção. Dois coletes de pele de coelho, R$ 690 reais cada um. A gerente veio soltando fogo pelas ventas para cima de todos nós. Berrando mesmo. “Como que vocês deixam isso acontecer? Vocês não são pagos pra isso!”

E eu: “Ué, mas era para ter tocado o alarme da peça, é impossível tirar”.

– “O alarme está desligado”.

– “Então pede para ver a filmagem da segurança”.

– “As câmeras são de mentira”.

Queria descontar do nosso salário. Eu mandei ela tentar, mas avisei que entraria com processo. A loja cagando para o sistema de segurança, tudo desativado ou de mentira, mas a culpa e os berros e o abuso moral vinham para cima dos fodidos que estavam ajudando dondoca a escolher calça jeans enquanto a outra dondoca roubava a peça.

Ah, esqueci de falar dos benefícios! Como todo mundo sabe VT desconta do salário, e nosso VR era de R$ 40, Q U A R E N T A reais por mês. Não dava nem para comprar uma coxinha por dia. Nem vou comentar quantas vezes eu fui assediada em horário de trabalho, e meus gerentes nada fizeram pra me ajudar ou defender.

Mas tinha cliente que eu via chegando e me escondia no estoque até ir embora. Perdia vez, perdia venda, perdia tudo, mas não conseguia passar pela humilhação. Outra opressão: trabalhar o dia inteirinho em pé. Não pode sentar. Não pode encostar no balcão. Nada. Eu que sempre tive problema de microvarizes, às vezes, ia pro banheiro para ficar 10 minutos sentada.

O discurso da meritocracia reinava o tempo todo. Se não batia meta era porque não se esforçava. Se PV (peça por venda, isto é, quantas peças você vendia por transação) não era cinco, é porque não se esforçava. Se não queria fazer hora-extra de graça para bater meta, era porque não se esforçava. Se faltava funcionário e estava tudo uma zona, era porque não se esforçava. Os gerentes diziam que “davam a oportunidade” de a gente trabalhar fora do horário para bater meta.

E, vejam, eram pessoas simples. Gente nova, gente que o sonho era fazer uma faculdade. Esse discurso idiota vinha todo de cima, era vendido como um sonho impossível, e a galera toda comprava. Porque se um dia você se esforçar o suficiente, pode alcançar a gerência e, aí sim, ganhar R$ 2 mil e levar na orelha não de um gerente, mas de um supervisor.

Fiquei seis meses nessa loja e me arrependo demais de não ter entrado com um processo trabalhista. Não bastasse trabalhar para empresário babaca encher o cu de dinheiro, tinha cliente babaca que chegava com peça de dois anos atrás querendo trocar e ainda ficava puto que não podia. Gente que vinha trocar peça de R$ 1.500 obviamente roubada – a gente tinha como saber pelas etiquetas.

Esse tipo de trabalho precário é absolutamente comum e tende a piorar conforme o tamanho da rede. Não que eu não tenha trabalhado para pequenas empresas com grandes escrotos em cargos de chefia, mas quanto maior a necessidade de trabalho de venda, mais descartável você é. E ainda tem uma galera do telemarketing que se fode muito mais. Especialmente porque boa parte deles é terceirizada, o que precariza não só o atendimento em si como também as condições de trabalho.

Fica aqui meu pedido: tenham consideração da próxima vez que entrarem num estabelecimento de varejo. A pessoa que está te atendendo provavelmente está cansada, engoliu qualquer porcaria barata no almoço em 15 minutos, não tem tempo de ficar com os filhos com uma folga por semana e vai fechar as contas apertada no fim do mês. Sei que é um saco, mas sejam, no mínimo, simpáticos com a galera. Não é culpa deles que eles têm que te vender cartão ou fazer oferta de expansão do seu pacote de TV. Às vezes, a gente está aqui no conforto do nosso lar recebendo ligação de alguém que passa o dia todo num cubículo ligando para estranhos, ouvindo merda para ganhar um salário horroroso. Todo mundo está lutando uma batalha que você não conhece.

Fico pensando que eu passei por tudo isso em 2011, quando a economia ia bem o suficiente para o shopping viver cheio, pra eu poder me dar ao luxo de sair desse emprego e achar outro sem muita dificuldade. O dólar estava a R$ 1,80 e nós tínhamos Ministério do Trabalho. Se naquela época já era assim, agora com a precarização do trabalho e a reforma da previdência, isso só vai piorar.

Como não existe muita esperança de recuperar direitos trabalhistas, nos resta soltar as pedras e estender a mão para quem cruza o nosso caminho.

Fonte: The Intercept Brasil, 03 de maio de 2019

[ARTIGO]: A Reforma da Previdência está sendo votada e quem perde é você!

O Governo Bolsonaro enviou ao Congresso uma proposta de Reforma da Previdência que é muito prejudicial aos segurados, sejam eles urbanos ou rurais, empregados ou empregadores ou profissionais liberais e aposentados ou não.


A proposta é tão ruim para o povo que o governo decretou sigilo sobre os estudos técnicos que a embasariam. Ou seja, os deputados terão que votar no escuro e sem saber os reais motivos. 

As notícias são de que o Governo Bolsonaro ofereceu R$ 40 milhões em emendas parlamentares para os deputados e deputadas federais aprovarem a ‘Reforma da Previdência’. A proposta já foi rapidamente votada e aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados. 48 votaram à favor, 18 votaram contra, mas ela ainda será votada pelo menos mais umas 5 vezes por comissões e por todo o Congresso até ser aprovada ou rejeitada.

SE APROVADA, A REFORMA DA PREVIDÊNCIA FARÁ COM QUE MUITOS BRASILEIROS TRABALHEM ATÉ MORRER E SEM SE APOSENTAR

A idade mínima para a aposentadoria iniciará com 65 anos para homens e 62 para mulheres, mas aumentará um ano a cada cinco anos aproximadamente. Portanto, em pouco tempo a idade mínima já será de 70 anos.

O projeto ainda diz que cada trabalhador(a) terá que contribuir por 40 anos para aposentar-se com a média salarial de 100% de suas contribuições. Ocorre que se você já tiver trabalhado 40 anos, mas não tiver a idade mínima não poderá se aposentar. Portanto, na prática muitos vão trabalhar por volta de 50 anos até se aposentar.

De outro lado, a proposta também prevê um tempo mínimo de 20 anos de contribuição. Isso quer dizer que quem completar a idade e tiver menos de 20 anos de contribuição não vai se aposentar.

O CÁLCULO DO VALOR DOS BENEFÍCIOS FICARÁ MUITO PIOR DO QUE É HOJE

A proposta do governo mexe na forma de calcular a média das contribuições e no percentual que o segurado vai receber. E isso se aplica não só às aposentadorias por idade e especial, mas também às pensões por morte, ao auxílios-doença etc.

Hoje os benefícios são calculados pela média das 80% maiores contribuições, ou seja, descarta as 20% menores contribuições. Isso é um pequeno alívio aos trabalhadores que têm contribuições irregulares ao longo de sua vida de trabalho.

O Governo quer passar o cálculo da média para 100% das contribuições, ou seja, não descarta nada. Só com esta medida todos os benefícios perderão valor que pode chegar a mais de 10% de diminuição.

Outra questão muito importante é o percentual que o trabalhador recebe da média de contribuições. Hoje nas aposentadorias especiais, por invalidez, de pessoa com deficiência, pensão por morte e até algumas aposentadorias por tempo de contribuição o segurado recebe 100% da média contributiva.

A proposta do governo é pagar apenas 60% da média para todo mundo que tiver até 20 anos de contribuição e pagar apenas mais 2% para cada ano que passar de 20 anos de contribuição.
No caso da pensão por morte o cálculo é muito pior, pois o valor começa com apenas 60% do valor da aposentadoria. Portanto, em alguns casos, o valor corresponderá a 60% de 60%. Pra você entender bem: tem casos em que a aposentadoria será 60% da média contributiva e a pensão será 60% desta aposentadoria. Isso vai representar uma diminuição de quase 2/3 em relação ao valor de como a lei prevê atualmente.


Veja neste exemplo prático de cálculo o tamanho das perdas

Um segurado que contribuiu os últimos 20 anos com 4 salários mínimos:
– Pela lei atual sua média contributiva será de R$ 3.279,15. Sua aposentadoria por invalidez será de R$ 3.279,15 e a pensão de seus dependentes será de R$ 3.279,15.
– Pela proposta do governo a média contributiva cai para R$ 3.052,26. A aposentadoria por invalidez cai para R$ 1.831,35 e a pensão de seus dependentes cai para R$ 1.098,81.

Este cálculo atinge empregados, empregadores e autônomos. Portanto, a proposta do governo vai empobrecer todos os segurados, além de fazer com que todos trabalhem muito mais tempo.

Outras questões muito graves estão previstas na reforma:

– Trabalhador rural ter que contribuir com carnê

– Não conversão do tempo especial para comum

– Fim do tempo especial para a exposição à periculosidade

– Fim da garantia de reajuste dos benefícios pela inflação

– Fim da garantia de um salário mínimo para as pensões

– Fim do abono do PIS e PASEP, que é o 14°, para quem recebe mais que um salário mínimo.

Outro absurdo sem precedente é a idade mínima para as aposentadorias especiais de 55 anos de idade para exposição de 15 anos insalubres, 58 anos de idade para exposição de 20 anos insalubres e 60 anos de idade para exposição de 25 anos insalubres. Mesmo que você tenha o tempo terá que esperar a idade mínima.

O GOVERNO DIZ QUE A REFORMA É PARA ACABAR COM PRIVILÉGIOS, MAS ISSO É UMA GRANDE MENTIRA. QUEM MAIS VAI PERDER SÃO OS POBRES E A CLASSE MÉDIA.

 

Matusalém dos Santos

Matusalém & Castelan

ADVOGADOS ASSOCIADOS

Especializado em Direito Previdenciário

Cinco pontos da Reforma da Previdência que mais prejudicam os trabalhadores

Confira os itens da PEC que vão impactar negativamente a vida de milhões de brasileiros. Governo mente quando diz que reforma vai combater desigualdades e reduzir privilégios

Em pronunciamento em cadeia aberta de rádio e TV, na última quarta-feira (24) o presidente Jair Bolsonaro (PSL), agradeceu a aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) nº 06/2019, da reforma da Previdência, na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados, e falou que a reforma é importante “para o Brasil retomar o crescimento, gerar empregos e, principalmente, reduzir a desigualdade social”.

Nenhuma das afirmações é verdadeira, segundo especialistas. Primeiro porque crescimento econômico e geração de empregos dependem de investimentos. Quanto ao combate às desigualdades e a redução de privilégios, o resultado da aprovação da PEC significará o contrário do que Bolsonaro diz – especialmente para os mais pobres, idosos e trabalhadores.

O fato concreto é que “a PEC ignora todas as desigualdades e, com isso, se for aprovada no plenário, vai aprofundar as injustiças”, afirma a técnica da subseção do Dieese da CUT, Adriana Marcolino.

Segundo ela, o governo Bolsonaro também esqueceu na equação sobre o montante a ser economizado as dimensões continentais e as imensas diferenças sociais entre estados e municípios do país. A expectativa de vida entre os trabalhadores das Regiões Norte e Nordeste em comparação as do Sul e Sudeste, onde normalmente se vive mais tempo, é um desses esquecimentos, de acordo com a técnica.

“Um trabalhador de uma região mais pobre do país vive menos e vai morrer logo depois de aposentar, se essa reforma for aprovada”, diz Adriana.

Mas o que importa é economizar R$ 1 trilhão em 10 anos, como promete o ministro da Economia, o banqueiro Paulo Guedes, mesmo que isso seja às custas da queda brutal da renda dos trabalhadores, trabalhadoras e idosos, em especial os mais pobres.

A descrição de onde vem esta ‘economia’ está na PEC e prova que a reforma não vai combater as desigualdades, ao contrário, vai aumentá-la. O texto prevê que 84% da economia que a reforma proporcionará virão da redução do corte no total de trabalhadores com direito ao Abono Salarial; alterações nas regras que dificultarão a concessão de aposentadorias e no pagamento do Benefício da Prestação Continuada (BPC) a idosos em condição de miserabilidade.

Se todas as mudanças forem aprovadas, os afetados serão 90% dos quase 35 milhões de trabalhadores urbanos e rurais aposentados pelo Regime Geral da Previdência Social, que ganham até dois salários mínimos, e os beneficiários do BPC.

O Portal CUT listou cinco itens, entre outras maldades, contidos na PEC 006, que mostram como a reforma não combate privilégios. Ao contrário, tira renda dos mais pobres e desampara os indefesos.

A obrigatoriedade da idade mínima

A reforma da Previdência prevê o fim da aposentadoria por tempo de contribuição – que hoje é de 30 anos para mulheres e 35 para homens -, e institui a obrigatoriedade de idade mínima para aposentadoria de 65 anos (homens) e 62 anos mulheres).

Com isso, jovens que começam no mercado de trabalho mais cedo, aos 16 anos, por exemplo, (que é a idade mínima permitida por lei para se começar a trabalhar), só vão se aposentar depois de trabalhar 49 anos. Muito além do tempo de contribuição de 40 anos estabelecidos como regra para recebimento da aposentadoria integral.

Idade mínima prejudica ainda mais as mulheres

Para a professora de economia do Trabalho da Unicamp, Marilane Teixeira, impor uma idade mínima de 62 anos para as mulheres é uma perversidade porque, além da dupla jornada, as mulheres têm sofrido com os cortes nos orçamentos familiares.

“Normalmente ela acorda três horas antes, leva o filho até uma cuidadora ou a avó da criança, e são elas que levam o filho dessa trabalhadora até a creche. Depois essa mulher tem de pegar o filho na casa onde deixou, porque a creche já fechou. Neste trajeto entre casa, cuidadora, trabalho e volta ela perde 12 horas do seu dia. Chega em casa e tem os afazeres domésticos”, diz a professora.

Além disso, prossegue Marilane, ainda tem os deslocamentos em transporte público, o ambiente precário no trabalho, os baixos salários, os períodos de contribuição interrompidos. Tudo isso, conclui a professora, são condições que dificultam ainda mais uma mulher precisar completar 62 anos para se aposentar.

“Não se justifica aumentar a idade mínima para a mulher, enquanto as condições do mercado de trabalho continuarem desiguais”, diz .

Pelas regras atuais, tanto o trabalhador quanto a trabalhadora se aposentam após 15 anos de contribuição e o valor do benefício é calculado com base nas 85% maiores contribuições.

Bolsonaro quer mudar para 20 anos de contribuição e pagar aposentadoria com valor de apenas 60% da média de todas as contribuições. Ou seja, vai contar o salário do início de carreira quando a maioria das pessoas ganha pouco ou recebe salário de estagiário para reduzir ainda mais o valor do benefício.

Pelas regras atuais, um trabalhador que contribuiu 20 anos recebe um benefício calculado com base em 90% das suas maiores contribuições.

Com a reforma, ele vai receber apenas 60% do total. No mínimo, ele já saiu perdendo 30% da sua aposentadoria.

Segundo Marilane Teixeira, os homens que se aposentam por idade conseguem contribuir, em média, 21 anos, e as mulheres por 18 anos, e mais da metade dos trabalhadores e trabalhadores se aposentam contribuindo entre 15 e 16 anos.

“Será muito difícil um trabalhador conseguir contribuir por 20 anos”, diz a economista.

Já a técnica do Dieese, Adriana Marcolino, lembra que quem se aposenta contribuindo por apenas 15 anos são aquelas pessoas que estão nas piores condições do mercado do trabalho, com grandes intervalos entre carteira assinada e informalidade.

“Hoje as mulheres que se aposentam por idade trabalham em média até os 61 anos, para conseguir juntar os 15 anos de tempo mínimo de contribuição. Já a média masculina é de 65 anos e meio. Neste cenário, se a reforma for aprovada, as mulheres vão conseguir se aposentar somente aos 65 e os homens aos 67”, afirma a técnica do Dieese.

Sistema de capitalização

A capitalização da Previdência que Bolsonaro quer adotar no Brasil funciona como uma poupança individual formada apenas pela contribuição do próprio trabalhador, sem a contrapartida do empregador e do governo como é hoje.

Além disso, o trabalhador pagará os custos com as taxas de administração dos bancos, que só visam o próprio lucro. Em países onde o sistema foi implantado, está sendo revisto porque os aposentados estão na miséria, recebendo até 40% menos do que receberiam se a aposentadoria fosse pública.

Hoje o BPC paga um salário mínimo (R$ 998,00) a 4,5 milhões de brasileiros pobres. Dois milhões são idosos, que começaram a receber a partir de 65 anos, e outros 2,5 são pessoas com deficiência que comprovam renda familiar de cerca de ¼ do salário mínimo (R$ 249,50).

O governo Bolsonaro quer que o valor seja de apenas R$ 400,00 para idosos a partir de 60 anos e somente a partir dos 70 anos, o idoso receberia o salário mínimo integral.

Com a medida, segundo cálculos do Dieese, a partir da taxa de juros da poupança, a perda em valor corresponderia a 26,2%, mesmo com a antecipação do BPC a partir dos 60 anos, com valor de R$ 400,00.

Em um período de 10 anos, o valor do benefício segundo o modelo atual seria de R$ 42.175, enquanto, pelo modelo proposto, o valor presente seria de R$ 30.191 – uma diferença de R$ 11.984, que equivale à perda de 28,4% no valor presente do BPC dos beneficiários idosos, levando-se em conta a utilização da taxa de retorno da poupança, de uma projeção de reajuste do valor do benefício a cada dois anos, para uma inflação de 4,0% ao ano.

Mudanças nas regras da Previdência rural

A Previdência rural hoje prevê idade de aposentadoria de 60 anos para homens e 55 para as mulheres. 98% dos benefícios previdenciários concedidos equivalem a um salário mínimo ou menos.

A nova previdência destrói esta proteção porque muda as exigências de comprovação de 15 anos de trabalho para “contribuição” de 20 anos inteiros para o INSS. Além disso, homens e mulheres vão se aposentar com a mesma idade: 60 anos.

De acordo com a técnica do Dieese, Adriana Marcolino, no campo 78% dos homens e 70% das mulheres começaram a trabalhar com menos de 14 anos, em 2014. “Não estou falando do século passado. Essas pessoas vão ter de trabalhar no mínimo 46 anos para se aposentar, se a reforma da Previdência for aprovada”.

Outro estudo mostra que muitos trabalhadores rurais não conseguem sequer comprovar 15 anos de trabalho completos, expressos pela contribuição sobre a comercialização da agricultura familiar. Quase nenhum conseguirá contribuir por 240 meses (20 anos), dada a natureza de seu trabalho ser incerta, intermitente e muitas vezes informal.

“O trabalhador rural tem de contribuir no mínimo com R$ 600 reais ao ano, ou R$ 50 ao mês, Eles não vão conseguir pagar porque muitas famílias sobrevivem com o Bolsa Família, pois o plantio dá só para sua subsistência. O governo vai aumentar a miséria no campo”, afirma a professora Marilane Teixeira.

A tese é corroborada pela técnica do Dieese, Adriana Marcolino. Ela conta que nos estabelecimentos no campo a renda média anual em 2006 era de R$ 255,00. Reajustado pelo INPC, esse valor sobe para R$ 509,00, este ano.

“É tudo que eles arrecadaram no ano inteiro. Não é renda mensal. Como eles vão conseguir pagar 600 reais, se não conseguem nem isso para a sua subsistência?, questiona, Adriana, que complementa: “ Isto significa que esses 50% já estarão fora da aposentadoria”.

Governo Bolsonaro acaba com política de valorização do salário mínimo

Projeto apresentado nesta segunda-feira estabelece que valor em 2020 será de R$ 1.040, sem levar em conta aumento real; política de valorização foi negociada por sindicatos com o governo Lula

O governo Bolsonaro anunciou o valor do salário mínimo para 2020, de R$ 1.040, aumento de R$ 42 sobre ao atuais R$ 998. O projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) apresentado nesta segunda-feira (15) pela equipe econômica leva em conta somente a reposição da inflação medida pelo INPC (Índice Nacional do Preços ao Consumidor), sem aumento real.

De acordo com o Dieese, estima-se que 48 milhões de pessoas têm rendimento referenciado no salário mínimo. Quando subiu para R$ 998, em 2019, o incremento de renda na economia foi de R$ 27,1 bilhões. Na arrecadação tributária sobre o consumo, esse incremento foi da ordem de R$ 14,6 bilhões.

Assim, o governo coloca um fim na política de valorização do salário mínimo adotada desde 2004 e estabelecida por lei desde 2007. A fórmula, negociada pelas centrais sindicais com o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, previa um mecanismo de valorização que repunha as perdas inflacionárias desde o último reajuste, pelo INPC; concedia aumento real de acordo com o crescimento do PIB referente ao ano anterior; e antecipava gradativamente, a cada ano, a data de reajuste, até fixá-la em 1º de janeiro.

Além disso, estabeleceu-se um longo processo de valorização que de 2004 a 2019 significou reajuste acumulado de 283,85%, enquanto a inflação (INPC-IBGE) foi de 120,27%. Em janeiro, terminou a validade da Lei 13.152, de 2015, que fixava essas regras para o piso nacional.

A proposta de LDO do governo Bolsonaro segue para votação do Congresso Nacional onde passa primeiro pela Comissão Mista de Orçamento. Após apreciação de deputados e senadores, o texto deve ser sancionado por Bolsonaro até 17 de julho.

Participação social

A política de valorização do salário mínimo foi conquistada graças à participação social, em ação conjunta das centrais sindicais, por meio das Marchas a Brasília, realizadas anualmente entre 2004 e 2009.

As duas primeiras, em 2004 e 2005, conquistaram reajustes expressivos para o salário mínimo nos anos seguintes. Com a terceira Marcha, no final de 2006, foram conquistados o aumento do valor do salário mínimo de 2007 e a adoção de uma política de valorização desta remuneração, que passou a vigorar a partir de 2008.

Assim, entre maio de 2005 e janeiro de 2016, o aumento real acumulado do salário mínimo foi de 72,98%. Nos dois anos subsequentes, entretanto, o percentual de reajuste que recaiu sobre o salário mínimo foi inferior ao INPC-IBGE (menos 0,1%, em 2017, e menos 0,25, em 2018), impondo-lhe perda de 0,34%.

Com o valor fixado em janeiro de 2019, o salário mínimo acumula, desde maio de 2004, aumento real de 74,33%. Essa valorização teve impacto direto no aquecimento da economia nacional, já que esses reajustes atingem a base da pirâmide social, refletindo-se em aumento de consumo e da atividade econômica.

Sem concursos públicos em 2020

No projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) para o ano que vem também não há previsão e realização de qualquer concurso público. “A prerrogativa, nesse momento, é sem previsão de concursos públicos”, declarou o secretário-adjunto da Fazenda do Ministério da Economia, Esteves Colnago.

Também não há previsão de reajustes para o funcionalismo público, exceção feita aos militares, que terão ganhos de acordo com a reestruturação da carreira proposta pelo governo.

Fonte: RBA | www.redebrasilatual.com.br

[PUBLICIDADE]: Plano de saúde é Agemed!

Você, associado (a), agora pode ter o plano de saúde mais completo com a Agemed Planos de Saúde!

Excelente rede credenciada de médicos, clínicas, laboratórios e hospitais.

Atendimento de urgência e emergência em todo o Brasil, em parceria com a rede ABRAMGE.

Para mais informações, entre em contato com o sindicato, em nossa sede ou pelo fone (48) 3622-2418.

 

Bolsonaro ignora realidade do mercado de trabalho e põe em risco a Previdência

Se a reforma da Previdência for aprovada, com a atual realidade do mercado de trabalho e da economia brasileira, daqui a 30 anos o resultado será o fim do financiamento Previdência Social, diz Fagnani

O governo de Jair Bolsonaro (PSL) quer impor aos trabalhadores e trabalhadoras uma reforma da Previdência com regras equivalentes ou até mais duras do que as praticadas em países desenvolvidos, desconsiderando completamente a situação do mercado de trabalho brasileiro, que registra recordes nos números de desemprego e de contratações precárias.

 

As consequências desta reforma neste cenário, segundo o economista e professor da Unicamp, Eduardo Fagnani, serão o fim do financiamento da Previdência Social e a extinção do direito à proteção na velhice.

 

“Essa reforma quer impor regras de países desenvolvidos, com IDH [Índice de Desenvolvimento Humano] elevado, e desconsidera completamente que essa não é a realidade do Brasil, que ocupa a 9ª posição em desigualdade numa relação de 198 países, com um mercado de trabalho cada vez mais precarizado”, diz o professor.

 

A realidade do mercado de trabalho brasileiro

 

Atualmente, 52,6% dos trabalhadores brasileiros estão fora do sistema pleno de proteção social, isso sem considerar os 13,1 milhões de desempregados e os 4,9 milhões de desalentados, que desistiram de procurar emprego depois de muito procurar.

 

Esses trabalhadores (52,6%) não têm vínculo empregatício e, portanto, não têm proteção para o futuro, não têm acesso aos benefícios do INSS e não têm direito a FGTS. Trabalham por conta, são contratados de forma precária ou como Pessoa Jurídica, os chamados PJ’s.

 

Já os empregados com carteira assinada respondem por apenas 38,9% da força ocupada e os servidores públicos, 8,5%.

 

Os dados são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) Contínua, do IBGE, e foram compilados pelos economistas José Roberto Afonso, professor do Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP), e Juliana Damasceno de Sousa, pesquisadora do Ibre/FGV.

 

Segundo o professor Eduardo Fagnani, o Brasil tem hoje 170 milhões de pessoas entre 14 e 65 anos em idade ativa. Desse total, 100 milhões fazem parte da População Economicamente Ativa (PEA), que estão no mercado de trabalho ou tentando se inserir, e 70 milhões estão fora, são aqueles que não trabalham nem estudam, que estão fora do mercado e outros, que é uma minoria, só estudam.

 

Do total da PEA, 27,9 milhões de trabalhadores estão subutilizados, segundo o IBGE – 13,1 milhões desempregados, 9,9 milhões subempregados e 4,9 milhões que não conseguem procurar empregos. Portanto, “estamos falando de uma população ocupada de aproximadamente 72,1 milhões de pessoas e de uma população excluída de 100 milhões”, diz Fagnani.

 

“Desse total, mais da metade trabalha sem carteira assinada e sem proteção. Com a reforma Trabalhista que ainda está sendo implementada, aqueles que ainda têm alguma proteção podem perdê-la a qualquer momento e terão dificuldade de contribuir com a Previdência Social”, explica Fagnani.

 

Desmonte do financiamento

 

Para o professor da Unicamp, se a reforma de Bolsonaro passar, daqui a 30 anos o resultado será o fim do financiamento do caixa da Previdência Social.

 

Isso porque, explica Fagnani, com a difícil realidade do mercado de trabalho sem proteção social, mais a proposta que pretende instituir o regime de capitalização, não existirá no futuro quem continuará pagando o Regime Geral de Previdência Social (RGPS).

 

“A Previdência Social como conhecemos pode simplesmente acabar. Aí teremos uma massa de trabalhadores numa corrida de obstáculos que jamais conseguirá vencer”, diz o professor.

 

BPC

 

A consequência do desmonte, diz Fagnani, será a migração de cerca de 70% a 80% da população para a proteção social, o chamado Benefício de Prestação Continuada, que, segundo a proposta de Bolsonaro, terá o valor rebaixado de um salário mínimo para R$ 400.

 

“E além do valor rebaixado, há o risco de não haver correção monetária, ou seja, o governo poderá deixar esse valor congelado por 5, 7 ou até 10 anos. E o que era R$ 400 pode se transformar ainda em R$ 250”.

 

Fonte: CUT Brasil, 04 de abril de 2019