[ARTIGO]: Qual o custo do golpe de Estado que vitimou o Brasil?

Por José Álvaro de Lima Cardoso, economista do DIEESE

Consta que o governo Bolsonaro, para comprar o apoio para a aprovação da contrarreforma da Previdência (PEC 6/2019), está liberando R$ 1 bilhão em emendas parlamentares, já divulgadas pelo governo no Diário Oficial de segunda-feira (8/07). Segundo as denúncias as liberações estão ocorrendo, inclusive, de forma ilegal e sem lastro financeiro para sua realização. A proposta de contrarreforma da previdência só poderia, mesmo, ser aprovada com grossa corrupção. Por mais que tentem enganar a população, a destruição dos fundamentos atuais da Seguridade Social, o fim das contribuições patronais, a redução do valor das aposentadorias e pensões, o fim do pacto de solidariedade entre gerações, são de fato propostas muito impopulares, e só poderiam mesmo ser aprovadas com compra de votos.
As impressionantes denúncias que vêm sendo feitas pelo site The Intercept, na chamada operação Vaza Jato, confirmam o que já se sabia desde 2014. Mas que agora são comprovadas pelas “confissões” dos autores da Lava Jato, que aparecem nos materiais divulgados. No processo de construção do golpe no Brasil, a partir mais ou menos de 2013, foi fomentado no meio do povo o complexo de vira-latas, e se depreciou de forma sistemática tudo que poderia significar orgulho ou amor verdadeiro pelo Brasil. A campanha foi tão eficiente, que idiotas chegaram a sair nas manifestações pró impeachment vestidos com as cores ou enrolados na bandeira dos EUA (até hoje isso acontece, aliás). Somente um processo sofisticado de guerra hibrida poderia possibilitar o apoio a uma operação antinacional como a Lava Jato, articulada para quebrar a Petrobrás e seu entorno, e que desde 2015, gerou bilhões de reais de prejuízos para a economia, provocando a demissão de milhões de trabalhadores, liquidando dezenas de projetos na área de energia, indústria naval, infraestrutura e defesa.
A agressão imperialista que o Brasil está sofrendo, que conta com a ativa participação de entreguistas e coveiros da democracia de dentro do país, pode se comparar às guerras empreendidas contra o Iraque e Líbia, as técnicas de desestabilização e desmonte do país são bastante semelhantes. Setores da burguesia nacional tomaram o Estado de assalto, literalmente. Por exemplo, em 2017 o banco Itaú, que apoiou o golpe, foi isentado de impostos relativos à fusão Itaú/Unibanco realizada em 2008, no valor de R$ 25 bilhões. Em pleno processo de recessão e numa crise fiscal dramática, o banco obteve uma isenção quase equivalente ao valor gasto com o Bolsa Família. Enquanto os governos pós-golpe entregaram dinheiro para bancos e multinacionais, usando como pretexto a crise e a falta de dinheiro, encaminham ao mesmo tempo, o maior ataque aos direitos sociais e trabalhistas registrados na história do Brasil.
O caso apontado, e de dezenas de outros ainda mais escandalosos, representam o pior tipo de corrupção, porque é consequência da captura, sem freios, do Estado pela elite do dinheiro, especialmente a elite financeira. O chamado Dinheiro, entre os blocos de interesse do golpe de 2016, é o mais poderoso por ter a capacidade de comprar todos os demais segmentos. Muitos reclamam dos recursos do Bolsa Família, fração diminuta do orçamento, direcionada para salvar quase 50 milhões de brasileiros da fome, mas acham normal esse tipo de medida que beneficia meia dúzia de magnatas que mal sabem onde fica o Brasil. Este tipo de corrupção, a mais selvagem de todas, não indigna a maioria das pessoas porque é naturalizada pela sociedade e grande mídia.
O preço do golpe de Estado contra a democracia no Brasil, do ponto de vista da população, é milhões de vezes mais alto do que o custo da corrupção, justificativa dos membros da Lava Jato para os graves crimes que cometeram, e que agora estão se comprovando. Quanto valem, por exemplo, para os trabalhadores, todos os artigos que liquidaram com a contrarreforma trabalhista aprovada em 2017? Quanto custa para o Brasil o fim da lei de Partilha e desmontagem da Petrobrás, que eram os passaportes do país para o desenvolvimento? Quanto custou a liquidação do setor de engenharia nacional, que concorria no mundo todo, e que, destruído, abriu espaços para os capitais norte-americanos? Qual o custo dos 7 milhões de empregos formais incinerados desde o golpe em decorrência da Lava Jato, operação montada pelos EUA? Quanto custou, em termos de soberania energética, a prisão do Vice-almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva, principal responsável pela conquista da independência na tecnologia do ciclo de combustível, que colocou o Brasil em posição de destaque na matéria, no mundo?
Quanto irá custar, em termos de soberania nacional, o desmonte da Odebrecht, empresa responsável pela construção do submarino nuclear, e sua controlada, a Mecatron, responsável pela fabricação dos mísseis nacionais. Quanta custa à soberania nacional a colaboração entre os responsáveis pela Lava Jato e órgãos de investigação do Estado norte-americano, que permitiram (e permitem) o acesso do governo daquele país a informações sigilosas que são utilizadas para atacar e processar judicialmente a Petrobrás e outras empresas brasileiras? Quanto custará ao Brasil o repasse, ao Império do Norte, de petróleo, água, minerais e a Base de Alcântara para a instalação de bases militares? Quanto custará a destruição da Previdência Social para os 100 milhões de brasileiros que dela dependem, com o único objetivo, inconfessável, de abrir mercados para os bancos privados? Quanto custou para o Brasil a fraude das eleições de 2019, agora cada vez mais comprovada pelas denúncias do The Intercept?